Provedores de VPN ameaçam sair da França após ordem de bloqueio judicial
A recente decisão do Tribunal Judicial de Paris de obrigar grandes provedores de VPN, como NordVPN, ExpressVPN e Surfshark, a bloquearem mais de 200 sites de pirataria esportiva gerou forte controvérsia. Especialistas alertam que a medida pode criar um novo precedente sobre a neutralidade das VPNs e a privacidade digital na Europa.
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O que motivou a decisão judicial na França
De acordo com o portal TorrentFreak, o tribunal francês determinou que as empresas CyberGhost, ExpressVPN, NordVPN, ProtonVPN e Surfshark bloqueiem 203 domínios associados à transmissão ilegal de eventos esportivos. A medida está em vigor para toda a temporada 2025/2026 e exige o bloqueio imediato do conteúdo pelos usuários em território francês.
É a primeira vez que o sistema jurídico da França reconhece as VPNs como “intermediários técnicos”, e não apenas ferramentas neutras de criptografia. O tribunal rejeitou o argumento das empresas de que, por operarem sob política zero logs (sem armazenamento de dados), não poderiam intervir em acessos de usuários. Segundo a decisão, o bloqueio pode ser feito de forma regional, sem necessidade de identificar pessoas individualmente.
O plano da Arcom contra a pirataria esportiva
O caso faz parte de uma iniciativa mais ampla da Arcom (Autorité de régulation de la communication audiovisuelle et numérique), órgão francês responsável por fiscalizar mídia e comunicações. A agência anunciou em dezembro de 2025 que implementará um sistema de bloqueio automatizado e em tempo real até o fim do primeiro semestre de 2026.

Segundo a Arcom, o sistema será alimentado por uma listagem dinâmica de IPs e domínios suspeitos. Essas informações serão compartilhadas com provedores de internet, DNS, CDNs e até lojas de aplicativos. O objetivo é interromper transmissões ao vivo de forma automatizada, impedindo a proliferação de links ilegais durante eventos como UEFA Champions League, Premier League e Top 14 de rugby.
Por que a França está mirando as VPNs
Um relatório recente da Arcom revelou que cerca de 66% dos consumidores de conteúdo ilícito na França utilizam VPNs ou DNS alternativos para contornar bloqueios. Essa estatística explica a ampliação da repressão — as autoridades começaram a considerar os provedores de VPN como parte ativa da cadeia técnica que dá suporte ao acesso não autorizado.
Reação imediata das empresas de VPN
A decisão francesa deu às empresas apenas três dias para cumprir os bloqueios. A NordVPN já anunciou que irá recorrer, enquanto a VPN Trust Initiative (VTI) classificou a medida como “desproporcional e perigosa” para a privacidade online. Segundo a coalizão, “visar serviços de VPN por atividades que não promovem é uma abordagem equivocada”.
Em nota, a VTI advertiu que se o modelo francês for replicado, diversos provedores poderão encerrar suas operações no país, limitando o acesso dos cidadãos a serviços de criptografia legítimos e ferramentas essenciais de segurança digital.
A vitória da Canal+ e o precedente legal
A responsável pela ação judicial é a emissora Canal+, detentora exclusiva dos direitos de transmissão da Champions League e outras competições esportivas no país. Em comunicado, a empresa celebrou o resultado, considerando a decisão “um marco histórico na luta contra a pirataria esportiva”. Especialistas, porém, ponderam que o entusiasmo da emissora reflete interesses econômicos e não um consenso jurídico.
Desafios de eficácia e futuro incerto
Do ponto de vista prático, a real eficácia da medida é questionável. Mesmo que as VPNs bloqueiem certos sites, usuários franceses poderão trocar para serviços de VPN fora da jurisdição europeia ou recorrer a soluções alternativas como proxy e redes Tor. Assim, o ciclo do “gato e rato” entre autoridades e infratores tende a continuar.
“Bloquear é apenas parte do problema. A pirataria sempre encontrará meios de adaptação”, ressalta o analista de cibersegurança francês Julien Delacour.
Especialista em segurança digital
O impacto sobre os usuários franceses
O bloqueio imposto gera dúvidas sobre a legalidade da filtragem e o impacto sobre o direito à privacidade. Muitos usuários utilizam VPNs não para pirataria, mas para fins de proteção de dados e segurança cibernética. O receio é que as restrições francesas fragilizem esse direito fundamental.
Especialistas apontam que a França pode estar abrindo caminho para futuras regulamentações semelhantes em outros países da União Europeia, o que pode redefinir o papel das VPNs e aumentar tensões entre reguladores e empresas de tecnologia.
O que vem a seguir para o mercado europeu
Enquanto o tribunal reafirma seu compromisso com a proteção de direitos autorais, o setor tecnológico defende que a decisão ameaça valores básicos da internet livre. Se provedoras de VPN realmente deixarem a França, milhões de usuários perderão uma das ferramentas mais eficazes contra rastreamento e censura online.
Perguntas Frequentes VPNs ameaçam sair da França
Quais provedores de VPN foram afetados pela decisão francesa?
A ordem judicial envolve CyberGhost, ExpressVPN, NordVPN, ProtonVPN e Surfshark, que devem bloquear domínios de pirataria esportiva na França.
Por que a França quer que as VPNs bloqueiem sites piratas?
Cerca de 66% dos consumidores franceses de conteúdo ilegal usam VPNs para burlar bloqueios. A Arcom quer impedir o uso de VPNs para transmissões esportivas piratas.
Os usuários comuns serão afetados?
Possivelmente, sim. Quem usa VPN para segurança ou privacidade pode perceber restrições temporárias, dependendo da configuração regional.
O que as empresas de VPN disseram sobre a medida?
A NordVPN vai recorrer e a VPN Trust Initiative a chamou de ‘perigosa para a privacidade dos usuários’, podendo levar à saída de provedores do mercado francês.
Considerações finais
A exigência de bloqueios a sites piratas imposta a provedores de VPN representa uma mudança significativa no cenário digital europeu. Ao tratar serviços de criptografia como agentes ativos, a França inaugura um precedente controverso que poderá se espalhar pela União Europeia. Enquanto empresas buscam equilibrar conformidade e privacidade, o debate sobre liberdade digital continua mais aceso do que nunca.
