Toei confirma uso de inteligência artificial em produções após criar regras internas
A empresa japonesa começou a integrar IA generativa em seus projetos de cinema e vídeo em 2026, incluindo a criação de cenários e ferramentas para otimizar a produção.
A Toei confirmou que começou a utilizar inteligência artificial generativa em suas produções audiovisuais em 2026, após estabelecer regras internas para orientar a aplicação da tecnologia. A informação foi apresentada por Fumio Yoshimura, presidente e CEO da companhia japonesa, durante o Taiwan Creative Content Fest (TCCF), realizado em Taipé, em Taiwan.
A decisão marca uma nova etapa na estratégia tecnológica da empresa, conhecida mundialmente por franquias como Kamen Rider e Super Sentai. O grupo também está ligado à Toei Animation, responsável por animes populares como Dragon Ball e One Piece.
Segundo informações publicadas pela Variety, em 6 de novembro, a companhia já utiliza ferramentas de IA para produzir cenários, processar informações e auxiliar profissionais em atividades administrativas.
O anúncio também chama atenção porque a participação da inteligência artificial na indústria de animação japonesa continua gerando discussões sobre criatividade, direitos autorais e o futuro dos profissionais responsáveis pelas obras.
Tabela de conteúdos
Como a Toei está utilizando inteligência artificial?
A implementação da inteligência artificial na Toei não está limitada à geração de imagens. A empresa criou uma equipe dedicada a investigar como a tecnologia pode ser incorporada aos diferentes processos de produção.
Entre as aplicações confirmadas estão a criação de cenários com IA generativa e o desenvolvimento de um sistema destinado a ajudar produtores menos experientes a calcular os orçamentos de projetos audiovisuais.
Departamentos administrativos também utilizam inteligência artificial para executar tarefas repetitivas, processar dados e responder a consultas internas. Outra possibilidade em estudo envolve a supervisão criativa de produtos licenciados relacionados às franquias da empresa.
Durante a apresentação, Yoshimura afirmou que considera a tecnologia uma ferramenta capaz de ampliar as possibilidades criativas e comerciais, em vez de necessariamente substituir trabalhadores.
Apesar dessa posição, a companhia não divulgou publicamente os detalhes completos das regras internas, incluindo eventuais restrições relacionadas ao treinamento dos modelos, direitos autorais e participação de artistas humanos.
Também não foram identificados os títulos comerciais específicos que já receberam elementos produzidos com inteligência artificial nesta nova fase.
Toei Animation já experimentava IA desde 2021



Embora o anúncio represente uma mudança importante, os experimentos da Toei Animation com inteligência artificial começaram anos antes.
Em março de 2021, a empresa japonesa Preferred Networks anunciou uma colaboração com o estúdio para testar o uso da ferramenta Scenify, desenvolvida para transformar fotografias em cenários com aparência de anime.
O programa foi utilizado na produção de URVAN, um curta experimental de aproximadamente cinco minutos que apresenta uma interpretação futurista da cidade japonesa de Sasebo.
De acordo com o comunicado oficial da Preferred Networks, a ferramenta foi aplicada em cerca de dois terços dos cenários do projeto.
A tecnologia também reduziu o tempo necessário para determinadas etapas de preparação das imagens para aproximadamente um sexto do processo convencional.
Mesmo com a automação, os profissionais da Toei Animation continuaram responsáveis pelos ajustes artísticos e pela finalização dos cenários, incluindo a criação dos elementos cyberpunk.
A experiência demonstrou como a inteligência artificial poderia reduzir atividades técnicas e liberar mais tempo para decisões criativas.
Em maio de 2025, o RendaGeek já havia abordado os planos da empresa em Toei Animation impulsiona produção de animação com IA, incluindo o interesse em expandir a tecnologia para outras etapas da animação.
Empresa havia adotado uma posição cautelosa em maio de 2026
A confirmação mais recente também representa uma evolução em relação às declarações anteriores de representantes da Toei Animation.
Durante o evento Rio2C, realizado no Brasil em maio de 2026, Olfa Sakakibara, produtora de animação e executiva de estratégia de conteúdo global da empresa, afirmou que o estúdio ainda não havia integrado inteligência artificial em suas produções regulares.
Na ocasião, conforme relatado pelo Omelete, a executiva explicou que a companhia não descartava utilizar a tecnologia futuramente, mas considerava necessário compreender melhor suas possibilidades.
As declarações de maio e novembro não são necessariamente contraditórias. Yoshimura falou sobre a adoção da IA no grupo Toei e em projetos de cinema e vídeo, enquanto Sakakibara se referia especificamente ao fluxo de produção de animes da Toei Animation.
Portanto, a confirmação atual não significa que Dragon Ball, One Piece ou outros animes específicos já estejam utilizando IA generativa.
A distinção é importante porque o grupo atua em diferentes segmentos do entretenimento, incluindo filmes live-action, séries, animações e produções comerciais.
Inteligência artificial pode mudar a produção dos animes?
A utilização de IA nos estúdios japoneses levanta questões que vão além da economia de tempo.
Uma das principais preocupações envolve a possibilidade de substituir atividades tradicionalmente realizadas por ilustradores, animadores, coloristas e profissionais responsáveis pela criação de cenários.
Em produções de animação, o trabalho artístico envolve diversas etapas, como desenvolvimento visual, storyboards, desenhos intermediários, pintura, composição e revisão.
Ferramentas automatizadas podem auxiliar algumas dessas tarefas, mas sua utilização também exige decisões sobre qualidade, consistência visual e responsabilidade pelos resultados.
O debate já apareceu em outras áreas da distribuição de animes. Em novembro de 2025, por exemplo, a Crunchyroll enfrentou questionamentos após surgirem indícios de utilização de ferramentas automatizadas em legendas.
O caso foi abordado pelo RendaGeek na matéria Crunchyroll é acusada de usar IA em legendas de anime.
Outro episódio ocorreu quando a Amazon retirou dublagens em inglês geradas por inteligência artificial de produções como Banana Fish e No Game No Life Zero, após críticas relacionadas à qualidade e à substituição de vozes humanas.
A situação também foi detalhada em Amazon remove dublagens em IA de animes.
Esses exemplos mostram que a aceitação da tecnologia depende não apenas de seus benefícios econômicos, mas também de como ela é aplicada e apresentada ao público.
Filme produzido com IA foi citado como exemplo
Durante a apresentação em Taiwan, Yoshimura mencionou o filme Dreams of Violets, produção live-action desenvolvida inteiramente com inteligência artificial generativa.
O longa, com aproximadamente 75 minutos, foi selecionado para o Festival de Tribeca em 2026. Segundo a reportagem da Variety, o projeto teria sido realizado por apenas dois criadores, com orçamento estimado em cerca de US$ 2 mil.
O exemplo foi utilizado para demonstrar como tecnologias generativas podem permitir a realização de projetos audiovisuais com equipes e recursos financeiros menores.
Entretanto, a produção de um filme utilizando IA não significa que os mesmos métodos possam ser aplicados diretamente a grandes franquias.
Séries de longa duração precisam manter consistência de personagens, movimentos, direção artística e identidade visual entre episódios, fatores que tornam a integração de novas ferramentas mais complexa.
Toei também prepara expansão para jogos em 2027



A inteligência artificial faz parte de uma transformação mais ampla nos negócios da Toei.
Durante o mesmo evento, a empresa apresentou detalhes sobre sua expansão para o mercado de videogames por meio do selo Toei Games.
O primeiro lançamento previsto é Hino, programado para o início de 2027. Outros dois títulos, Killa e Debug Nephemee, estão previstos para a primavera japonesa do mesmo ano.
Os projetos serão lançados inicialmente no Steam, com planos de distribuição posterior em consoles como Nintendo Switch, PlayStation e Xbox.
Diferentemente de adaptações tradicionais, os três jogos são propriedades intelectuais originais desenvolvidas por criadores externos.
A intenção da Toei é transformar os videogames em uma nova origem para histórias e franquias, ampliando o modelo tradicional baseado em mangás, romances e produções televisivas.
A estratégia também está ligada ao plano corporativo Toei New Wave 2033, que pretende ampliar a participação das receitas internacionais de aproximadamente 30% para 50%.
O que muda para o futuro de Dragon Ball e One Piece?
Para os fãs de animes, a principal dúvida é como a adoção da inteligência artificial poderá afetar futuras produções da Toei Animation.
O histórico de experimentos com cenários e os investimentos realizados em tecnologias de automação indicam interesse em modernizar o fluxo de trabalho. Entretanto, ainda não existe confirmação de que a empresa utilizará IA generativa para criar animações completas de suas franquias mais conhecidas.
O anúncio de novembro de 2026 demonstra que a Toei considera a tecnologia suficientemente relevante para estabelecer regras internas e desenvolver aplicações práticas.
O próximo passo será observar como essas ferramentas serão incorporadas aos projetos e se a empresa oferecerá maior transparência sobre a participação de profissionais humanos.
A questão central não é apenas saber se a inteligência artificial consegue acelerar a produção, mas se sua utilização pode preservar a identidade artística que tornou os animes japoneses reconhecidos mundialmente.
Por enquanto, a mudança confirmada está na adoção regulamentada de IA pelo grupo Toei, enquanto o impacto direto sobre suas principais séries de animação permanece indefinido.

