Firmware da HP pode violar regras globais de sustentabilidade EPEAT 2.0
O mais recente firmware da HP reacendeu um antigo debate sobre práticas de bloqueio de cartuchos. A atualização, lançada em janeiro de 2026, ampliou o escopo da função Segurança Dinâmica (Dynamic Security), que desativa cartuchos remanufaturados ou de terceiros. O problema é que essa medida pode entrar em conflito direto com o EPEAT 2.0, novo padrão global de sustentabilidade em eletrônicos.
Tabela de conteúdos
O que é o EPEAT 2.0 e por que ele importa
O Electronic Product Environmental Assessment Tool, ou simplesmente EPEAT, é um sistema internacional de classificação ambiental administrado pelo General Electronics Council (GEC). Desde dezembro de 2025, a versão 2.0 ampliou critérios para cinco categorias de produtos: equipamentos de imagem, computadores, monitores, telefones, servidores e televisores. Entre as novas exigências estão regras mais rígidas sobre reciclabilidade, cadeias de suprimento éticas e design sustentável.
Um dos pontos fundamentais da nova regra é que dispositivos certificados não podem bloquear cartuchos remanufaturados, sejam eles do fabricante original ou de terceiros. O objetivo é promover a reutilização dos componentes e reduzir o descarte eletrônico — uma das maiores fontes de poluição tecnológica global.

A controvérsia da Firmware da HP: segurança ou restrição?
A atualização 2602A/B, lançada em 29 de janeiro de 2026, foi aplicada a pelo menos 11 modelos de impressoras, algumas delas com quase nove anos de mercado. Segundo a HP, o recurso Dynamic Security protege os consumidores contra produtos falsificados e riscos cibernéticos. No entanto, críticos afirmam que a função age como uma forma de gestão de direitos digitais (DRM) que limita a escolha dos usuários e compromete esforços ambientais.
“A HP se posiciona como líder em modelos de negócio circulares, mas, em vez de alinhar-se proativamente aos mais altos padrões ambientais, prioriza o lucro.”
Declaração do International Imaging Technology Council (Int’l ITC)
De acordo com o ITC, o novo firmware contradiz o “espírito” do EPEAT 2.0. Em 2023, a entidade havia solicitado ao GEC que revogasse mais de 100 certificações EPEAT da HP, alegando violações às regras de não bloqueio de cartuchos. A solicitação foi negada na época, já que o antigo EPEAT 1.0 não previa penalizações explícitas para esse tipo de prática.
Mercado e impacto ambiental
O conflito vai além da sustentabilidade. Ele desafia o equilíbrio entre segurança de firmware e direitos do consumidor. A abordagem da HP tem implicações diretas para usuários domésticos e empresariais, que muitas vezes recorrem a cartuchos remanufaturados como alternativa de custo e redução de resíduos. Especialistas apontam que dificultar esse reuso vai contra princípios de economia circular e desperdício zero.
Hoje, mais de 38 mil produtos ainda estão listados no EPEAT 1.0, mas apenas 163 migraram para o EPEAT 2.0 — nenhum deles impressora. Isso indica, segundo o ITC, uma hesitação do setor em adotar práticas verdadeiramente sustentáveis.
Reação da indústria e possíveis consequências
Tricia Judge, diretora-executiva e advogada-geral do ITC, destacou em entrevista que a HP é a única fabricante que utiliza atualizações de firmware de forma recorrente para impor bloqueios a cartuchos não oficiais. Para ela, a nova atualização publicada após a entrada em vigor do EPEAT 2.0 constitui um “teste direto” da efetividade da norma internacional.
Embora o EPEAT 2.0 ainda apresente brechas referentes à interoperabilidade de cartuchos, Judge acredita que a atualização representa um importante avanço. Segundo suas palavras: “Não conseguimos torná-lo tão sólido quanto esperávamos, mas é melhor do que antes.”
O GEC ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso, e a repercussão deve influenciar políticas futuras de firmware corporativo e sustentabilidade digital. Caso o conflito avance, a HP pode ser obrigada a revisar não apenas o recurso Dynamic Security, mas também sua estratégia global de sustentabilidade.
Possíveis caminhos de conformidade
O GEC sugere três abordagens para que fabricantes de impressoras mantenham a certificação EPEAT 2.0:
- Evitar firmware que desabilite cartuchos remanufaturados.
- Oferecer soluções homologadas que mantenham a funcionalidade completa do dispositivo.
- Disponibilizar cartuchos remanufaturados através de canais autorizados da própria marca.
Essas diretrizes mostram uma tentativa clara de incentivar a reutilização e reduzir a dependência de suprimentos proprietários, em linha com políticas globais de economia circular.
Perguntas frequentes sobre o caso HP e EPEAT 2.0
O que é o EPEAT 2.0?
É uma atualização do padrão internacional de avaliação ambiental para produtos eletrônicos. Define critérios mais rigorosos de sustentabilidade, com foco em reciclagem e economia circular.
Por que o firmware da HP é controverso?
O recurso Dynamic Security bloqueia cartuchos de terceiros alegando segurança, mas críticos e o ITC afirmam que isso viola o princípio do EPEAT 2.0 e limita a sustentabilidade.
A HP pode perder certificações ambientais?
Sim. Caso o GEC entenda que o firmware viola os critérios do EPEAT 2.0, a HP pode ter certificações revogadas e ser obrigada a revisar seu software.
Considerações finais
O caso do firmware da HP simboliza o choque entre controle corporativo e responsabilidade ambiental. À medida que padrões globais como o EPEAT 2.0 ganham força, práticas restritivas como o bloqueio de cartuchos podem se tornar inaceitáveis. A decisão do GEC sobre o tema poderá redefinir não apenas o futuro das impressoras, mas também o papel das grandes tecnologias no compromisso com a sustentabilidade.

