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Google é alvo do Cade por uso de conteúdo jornalístico via IA

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Em uma decisão considerada sem precedentes no país, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu um processo administrativo contra o Google por possível uso indevido de conteúdo jornalístico brasileiro em seus serviços de inteligência artificial. O caso marca a primeira vez em que uma Big Tech enfrenta investigação formal desse tipo no Brasil, e pode redefinir o equilíbrio entre plataformas digitais e produtores de informação.

Decisão unânime e foco em IA generativa

Na última quinta-feira (23), o Cade aprovou por unanimidade a abertura da investigação com foco no recurso AI Overviews, que cria resumos automáticos de conteúdos publicados por portais e jornais. O tribunal suspeita que a empresa tenha se beneficiado dessas informações sem oferecer contrapartida financeira ou reconhecimento adequado aos veículos de imprensa.

A decisão, aprovada por 5 a 0, aponta um possível abuso exploratório de posição dominante. Esse termo, usado dentro do processo, descreve como o Google pode ter extraído valor econômico do conteúdo jornalístico sem remuneração proporcional aos criadores originais das matérias.

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Histórico do caso e o papel da ANJ

A investigação não começou agora. O primeiro inquérito surgiu ainda em 2019, quando veículos de comunicação denunciaram a coleta automatizada de títulos, trechos de notícias e imagens por plataformas digitais do Google sem qualquer tipo de pagamento. Apesar de arquivado em 2024 por falta de provas, o caso foi reaberto no ano seguinte, após pressão da Associação Nacional de Jornais (ANJ), da Abert, Aner, Ajor e dos Repórteres Sem Fronteiras.

O grande ponto de virada veio com o lançamento do AI Overviews em 2024, recurso que usa inteligência artificial para mostrar resumos diretamente na página de busca — o que, na prática, dispensa o acesso aos sites originais. Esse comportamento é visto por muitos jornalistas e editores como uma ameaça direta à sustentabilidade financeira do jornalismo digital, já que reduz o tráfego e, consequentemente, a receita publicitária dos portais.

Posicionamento do Cade e dos conselheiros

O presidente interino do Cade, Diogo Thomson de Andrade, argumentou que o modelo de negócios da Big Tech evoluiu de maneira significativa desde o primeiro inquérito. Segundo ele, o uso de IA generativa permite que o Google retenha usuários diretamente dentro de sua plataforma, reduzindo o tráfego aos sites originais e afetando a cadeia de valor informativo no ambiente digital.

A conselheira Camila Cabral Pires-Alves, em voto-vista detalhado, foi além ao afirmar que o problema não é apenas de audiência, mas de valor informacional. Segundo ela, sempre que um usuário obtém uma resposta completa via resumo de IA, o Google internaliza o benefício sem que o produtor original receba reconhecimento ou compensação adequada.

“Quando o resumo de IA satisfaz o usuário totalmente, a plataforma retém a atenção e reduz a possibilidade de o veículo jornalístico capturar esse valor econômico.”

Camila Cabral Pires-Alves, conselheira do Cade

O que será investigado daqui para frente

A nova fase do processo prevê a coleta de dados sobre as chamadas buscas “zero-click”, situações em que o usuário lê apenas o resumo no Google e não acessa nenhum site adicional. Também serão comparados o valor capturado em publicidade digital pelo Google e os custos editoriais dos veículos que produzem o conteúdo usado nos resumos de IA.

Essa abordagem visa mensurar o impacto financeiro e informativo da prática e, possivelmente, estabelecer diretrizes futuras para remuneração de conteúdo jornalístico no ambiente digital brasileiro.

Reação do Google e das entidades de imprensa

A ANJ classificou a decisão como um marco histórico na defesa da produção jornalística nacional. Segundo a entidade, o processo “abre caminho para que o trabalho de jornalistas e produtores de conteúdo seja finalmente valorizado em um ambiente digital dominado pelas plataformas de tecnologia”.

O Google, por sua vez, divulgou uma nota oficial dizendo que o entendimento do Cade decorre de uma “interpretação equivocada” sobre o funcionamento de seus produtos. A empresa reforçou que o sistema de IA sempre prioriza exibir uma ampla variedade de fontes e afirmou estar aberta ao diálogo para explicar seu modelo de negócios.

O processo agora retorna à Superintendência Geral do Cade para o aprofundamento das investigações e coleta de dados complementares.

Implicações para o jornalismo e para o futuro da IA

O andamento desse processo poderá definir novas bases para o uso ético da inteligência artificial no Brasil. Trata-se de uma disputa que transborda o campo jurídico e alcança os desafios da transformação digital: até que ponto a automação informacional pode coexistir com o jornalismo profissional sem comprometer a sustentabilidade do setor?

Casos similares já ocorrem em países como Austrália, França e Canadá, onde legislações recentes obrigam as plataformas a remunerar veículos jornalísticos pelo uso de seus conteúdos. O Brasil, com essa iniciativa do Cade, pode seguir caminho semelhante e se tornar referência regional na regulação das Big Techs.

Possíveis impactos econômicos e regulatórios

Especialistas em regulação digital afirmam que uma eventual condenação poderá provocar um efeito dominó em outros segmentos. Plataformas que utilizam IA generativa para organizar informações — como resumos de artigos, podcasts e postagens — poderiam ser obrigadas a implementar modelos de licenciamento e remuneração a produtores de conteúdo.

Na prática, isso impactaria não apenas o Google, mas também outras gigantes da tecnologia, como Microsoft, Meta e OpenAI, que operam sistemas baseados em leitura e análise de conteúdo jornalístico.

O futuro das relações entre Big Techs e imprensa

À medida que a inteligência artificial avança e passa a desempenhar um papel cada vez mais central na oferta de informação, cresce a necessidade de políticas claras sobre direitos autorais e distribuição de receita. Esse processo do Cade pode ser o primeiro passo rumo a um cenário mais equilibrado, onde os avanços tecnológicos coexistam com práticas justas de compensação.

Perguntas Frequentes sobre

  1. O que motivou o Cade a investigar o Google?

    O Cade abriu um processo administrativo contra o Google por suspeita de uso indevido de conteúdo jornalístico em ferramentas de IA, sem compensação financeira justa aos veículos de comunicação.

  2. O que é AI Overviews?

    É um recurso do Google que gera resumos automáticos de informações diretamente na busca, usando inteligência artificial. A ferramenta é apontada como prejudicial para o tráfego e a receita dos sites de notícia.

  3. Quais entidades estão envolvidas no caso?

    Entre as principais estão a ANJ (Associação Nacional de Jornais), Abert, Aner, Ajor e Repórteres Sem Fronteiras, que pressionaram pela reabertura do inquérito.

  4. O que o Google disse sobre o processo?

    O Google afirmou discordar da decisão, defendendo que seus produtos exibem links de diversas fontes e que está aberto ao diálogo com o Cade.

Considerações finais

A abertura do processo contra o Google pelo Cade marca um ponto de inflexão nas relações entre tecnologia e jornalismo no Brasil. A decisão sinaliza que o uso de conteúdo mediado por IA precisa ser revisto sob uma ótica ética e econômica mais equilibrada. O desfecho desse caso poderá moldar o futuro da mídia digital e das práticas de inteligência artificial no país.

Diogo Fernando

Apaixonado por tecnologia e cultura pop, programo para resolver problemas e transformar vidas. Empreendedor e geek, busco novas ideias e desafios. Acredito na tecnologia como superpoder do século XXI.